sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A montanha

Algumas coisas perdem o encanto porque nós esperamos demais para tê-las; outras porque nós as temos à exaustão e outras porque simplesmente acabou o tempo de se pensar naquilo e o tema ficou gasto, cansado. Foi assim com a montanha.
No início era tudo encantador, mágico mesmo! Tanto que a chamávamos de "montanha mágica"!
Era quase um ritual: Acordávamos todos os dias e íamos lá ver qual era o café da manhã, quem tinha posto a mesa, o que tinha sido servido e quem já havia passado por lá para dizer alô. Eu, quando subia a montanha, sempre levava mais alguma coisa para o café, em geral era um delicioso bolo de milho que só de pensar agora me dá água na boca!
Era interessante ver como cada um tinha sua marca registrada no café da manhã: o Loirão sempre levava chocolates alpinos; a Calê com seus pães de cacetinho e mumu; a Kel com seus brigadeiros; a nossa sulista Lu com seu café preto bem forte; A mineirinha Helô com seus pães de queijo; o Adri sempre com palavras de otimismo...enfim, parecia mesmo uma grande e harmoniosa família! E assim ficou por muito tempo...
Até festa junina nós fizemos! Vários pertences de Ennis e Jack foram leiloados ou fizeram parte da pescaria; levamos comida típica e dançamos quadrilha. Ennis e Jack até se casaram! Só mesmo a nossa imaginação e uma sintonia muito grande entre todos é que faria dar certo uma festa junina virtual. Mas deu. E muito! Deixou saudades!
E quantas noites passamos nos chats, conversando em volta da fogueira, contando piadas, fazendo trocadilhos, rindo, colocando apelidos que duram até hoje e nos sentindo tão acolhidos por tanta gente que nem conhecíamos! Quantas amizades verdadeiras surgiram ali, naquelas noites, nos chats que apelidamos de "torneiras da devassidão", tal era o conteúdo quase pornográfico do que falávamos!
Até que um dia, nuvens carregadas trouxeram a tormenta para aquela montanha e a nevasca durou mais do que o esperado. Houve uma cisão. Alguns se refugiaram na Barraca; outros, mais insistentes, continuaram a fazer parte da montanha, indo à Barraca de vez em quando.
Mas uma festa de aniversário fez o sol brilhar novamente e acabou virando o mote para um Encontro Nacional, que aconteceu no bucólico Parque do Ibirapuera em São Paulo. Música, brincadeiras, conversas picantes, risos e beijos...tudo aconteceu naquele domingo!
Foi difícil a gente se despedir no metrô, porque nos despedíamos não apenas uns dos outros, mas também da magia que cercara todo aquele universo até ali. Enquanto ele era apenas virtual, todos se amavam incondicionalmente, afinal, pela internet não existem defeitos, nem mau-humor, nem incompreensão, nem cobranças....mas quando ultrapassamos a barreira do virtual e ousamos levá-lo ao mundo real as complicações começaram e pareciam não ter fim.
Intrigas, brigas, discussões, mal entendidos, fofocas, cobranças....tudo apareceu ao mesmo tempo e, silenciosamente, nossa montanha foi ruindo.
Ninguém sabe exatamente quando aconteceu, mas quase todos aqueles assíduos frequentadores debandaram, qual ovelhas desgarradas.
Não existem mais cafés da manhã recheados de guloseimas; não existem mais conversas à noite em volta da fogueira; a tentativa de uma segunda festa junina foi totalmente frustrada e aquele amor e harmonia que tanto nos uniu acabou dando lugar a um carinho, uma saudade, uma crença de que podem existir boas pessoas na internet.
Mas, no final das contas, o saldo foi positivo! Pelo menos pra mim, pois fiz grandes amigos! Poucos, mas verdadeiros. E fiz parte de uma história que acredito ser rara dentro do mundo virtual. Na montanha, demos o melhor de nós! E, como a lei da reciprocidade existe no universo, também recebemos o melhor de todos. No entanto, como uma vela que se apaga sem que precisemos explicar o porquê, aquela montanha deixou de fazer parte da nossa vida. Ela não deixou de existir. Ainda estará lá pronta para abrigar novas ovelhas que queiram passar por essa experiência também, mas para aquele grupo que viveu seu apogeu em 2006, ela virou somente uma doce lembrança, como um quadro preso na parede. E como diria Drummond: "Mas como dói"!

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